A mística de ser Pai

A mística de ser Pai

 

Certa vez ouvi um amigo dizendo que não era pai do seu filho, mas amigo. Muitos anos se passaram, mas suas palavras ainda ecoam em meus ouvidos, talvez pelo fato de eu ter os melhores pais do mundo, motivo de grande alegria. 13 de agosto está aqui: dia dos Pais, o que justifica minha meditação.

Ser Pai é um dom e uma tarefa.

Acredito que, antes de tudo, a paternidade seja um dom, um reflexo de Deus Pai no banquete da vida: o Pai que cria, liberta, encaminha e doa seu próprio Filho. Há quem lute pelo direito de ter filhos. Egoísmo, talvez! Mas desejo legítimo também. A alteridade do filho, em relação ao suposto direito de ter filhos, deveria ter a precedência em todas as circunstâncias, até mesmo em se tratando de uma adoção – o direito de ter pais. Não basta ter filhos, é preciso encaminhá-los e doar-se nessa tarefa. O ser do pai se efetiva na tarefa da paternidade, que é cotidiana, em todas as idades. Como é bom e suave ouvir de meu pai ao telefone: “tem visto os meninos”, referindo-se aos meus irmãos. Mais velhos do que, diga-se. Os filhos nunca crescem para o pai. A figura do pai se tece na teia do tempo nesse misto de dom e tarefa. Aprende-se também a ser pai: por isso mesmo os avós são mais complacentes com os filhos de seus filhos. Já aprenderam com experiências pregressas. Seguramente, não vão atrapalhar a educação dos filhos de seus filhos, apenas serenaram.

Uma estrutura de aprendizado mútuo.

Ser pai é se tornar responsável pelo amanhã, criando e educando hoje, formando personalidades, apontando caminhos e construindo valores. Mas o pai não sabe tudo, mesmo tendo que ser presença na vida dos filhos e repassar-lhes o que de melhor a cultura lhes deu. A estrutura da nossa vida é comunhão: os filhos aprendem dos pais. Mas estes, com o dinamismo da cultura humana, têm que aprender dos filhos. Desse modo, ser pai é compartilhar responsavelmente horizontes: a sadia tradição que transmite aos filhos e as novidades que os filhos descobrem no seu tempo. Uma geração aprende com a outra, nós aprendemos uns com os outros e não vivemos sem os outros. Porém, pai será sempre pai, e filho, sempre filho. A relação de amizade é importante. Mas o ser pai suplanta, e muito, a amizade. O ser Pai é uma autoridade que promove a vida, não apenas um amigo que compartilha experiências. Na relação pai-filho, pai é sempre pai, até mesmo quando aprende com os filhos.

Desafios contemporâneos.

Há muitos desafios no mundo de hoje: a violência, o relativismo, o consumismo, as drogas, a sonhada democracia, etc. Mas para mim o grande desafio de ser pai hoje, dentre tantos, é aprender as linguagens do mundo moderno. Nós somos sempre num mundo onde confluem diversos horizontes: passado, presente e futuro. Nossa vida se traduz na linguagem como produtora de sentido. Mas hoje tudo acontece numa velocidade estonteante, quase não temos tempo de dizer nossa experiência. O dinamismo é grande e as mudanças, extremadas. Cada evento, cada dia, uma linguagem nova. Daí é que no mundo contemporâneo há muitas linguagens. Ser pai hoje é reaprender a falar a fala do homem pó-moderno. Ser pai, participar da vida dos filhos, equivale a compartilhar a mesma linguagem. E nesta construir valores, livrando os filhos da morte (Provérbios, 23, 12), corrigindo-os e experimentando alegria (Provérbios, 29, 17). Ser pai é por limites não confundindo atenção material com a atenção afetiva, muito mais importante. Ser pai é expressão de humanidade, é ser cidadão, é comportar-se como Pai, reflexo do amor de Deus.

Ser pai é questão de mística.

O mistés (místico) é aquele que faz silêncio e escuta em profundidade, por isso, descobre o caminho autêntico e seguro do bem para viver. Mergulha na essência do humano. Desse modo, no dom e na tarefa, na estrutura de comunhão da vida humana, diante dos desafios hodiernos, é possível exercer com dignidade a missão de ser Pai.

Feliz dia dos Pais a todos os pais do mundo!

Pe. Márcio Paiva